Transcrevo três páginas do livro A Nova Era Digital, escrito por Eric Schmidt e Jared Cohen (na fotografia) – presidente executivo da Google e diretor da Google Ideas, respetivamente –, que dão uma boa ideia de como poderá ser a nossa vida daqui a umas décadas. Como disse Charles Kettering, o futuro deve preocupar-nos a todos porque é lá que teremos de viver o resto das nossas vidas.

Não há relógios com alarme na sua rotina de despertar, pelo menos, não no sentido tradicional. Em vez disso, será acordado pelo aroma de café acabado de fazer, pela luz que entra no quarto quando as cortinas abrem automaticamente e por uma suave massagem ministrada pela sua cama de alta tecnologia. Mais provavelmente, acordará refrescado, porque dentro do seu colchão existe um sensor que monitoriza os seus ritmos de sono, determinando com precisão quando acordá-lo sem interromper um ciclo REM (Rápido Movimento dos Olhos).

O seu apartamento é uma orquestra eletrónica e você o maestro. Com simples movimentos do pulso ou instruções orais pode controlar a temperatura, a humidade, a música ambiente e a iluminação. Pode passar os olhos pelas notícias do dia num dos ecrãs translúcidos, enquanto o armário automático seleciona um fato limpo, porque o calendário diz que hoje tem uma reunião importante. Dirige-se à cozinha para tomar o pequeno-almoço e as notícias translúcidas acompanham-no pelo corredor, como hologramas que pairam frente a si mediante deteção de movimentos. Pega numa chávena de café e num bolo acabado de fazer, cozinhado no forno com controlo de humidade, e passa em revista os novos e-mails num tablet holográfico projetado à sua frente. O sistema informático central sugere-lhe uma lista de tarefas de que os robôs domésticos devem ocupar-se durante o dia, e você aprova-a. O sistema sugere ainda que, visto que a sua reserva de café deve acabar na quarta-feira, considere comprar uma embalagem maior que ele detetou estar agora à venda online. Em alternativa, propõe-lhe umas quantas recensões recentes de outras marcas de café de que os seus amigos gostam.

Enquanto pensa nisso, você abre as notas para uma apresentação que vai fazer nesse mesmo dia a uns clientes estrangeiros importantes. Todos os seus dados – da sua vida pessoal como da sua vida profissional – estão acessíveis em todos os seus equipamentos, visto estarem guardados na “nuvem”, um sistema remoto de armazenamento digital de capacidade praticamente ilimitada. Você possui uma série de dispositivos digitais intermutáveis: um é do tamanho de um tablet, outro do tamanho de um relógio de bolso, enquanto os outros serão flexíveis ou descartáveis. Todos terão peso-pluma, serão incrivelmente rápidos e usarão processadores mais potentes do que tudo o que exista hoje em dia.

Você bebe outro golo de café e sente-se confiante de que irá causar boa impressão aos clientes. Embora nunca se tenha encontrado com eles, é como se já os conhecesse, pois as vossas reuniões têm decorrido num interface de realidade virtual. Você interage com avatares holográficos que capturam com exatidão os movimentos e a fala dos clientes. Compreende-os bem e às respetivas necessidades, para o que muito contribui o facto de um software autónomo de tradução reproduzir o discurso de ambas as partes em traduções perfeitas e praticamente instantâneas.

Interações virtuais em tempo real, como esta, bem como a possibilidade de editar documentos e outros projetos, ou colaborar na sua elaboração, tornarão negligenciável a distância física entre as partes.

Ao andar pela cozinha, bate com o dedo grande do pé na esquina do armário: Auuuu! Então, pega no dispositivo móvel e abre a aplicação de diagnóstico. Dentro do dispositivo há um pequeno microchip que usa ondas submilimétricas de baixa radiação para fazer um scan do seu organismo, algo semelhante a uma radiografia. Um rápido scan revela que o dedo ficou só magoado, não há fratura. E você ignora a sugestão do dispositivo de contactar um consultório médico próximo para ter uma segunda opinião.

Ainda lhe sobra algum tempo antes de ter que sair para o trabalho, onde chegará de carro sem condutor, é claro. Com base no seu calendário, o seu carro sabe a que horas deve chegar ao trabalho cada manhã, e, depois de pesquisar os dados do trânsito, comunica com o seu relógio de pulso para iniciar uma contagem decrescente de uma hora até ao momento em que terá de sair de casa. O tempo do trajeto será de descanso ou de trabalho, conforme quiser.

Antes de sair, o seu dispositivo recorda-lhe que deve comprar um presente para o seu sobrinho, cujo aniversário se aproxima. Você passa em revista as sugestões de presentes do dispositivo, feitas com base em dados reunidos sobre outras crianças de 9 anos com o mesmo perfil e interesses, mas nenhuma das sugestões lhe agrada. Depois, lembra-se de uma história que os pais dele lhe contaram e que pôs a rir às gargalhadas todos os maiores de 40 anos: o seu sobrinho não tinha percebido uma referência à velha desculpa de que “o cão comeu o meu trabalho de casa”. Como é que um cão ia comer o meu sistema de armazenamento de dados?! É que ele nunca tinha frequentado uma escola antes dos manuais digitais e dos sumários de aulas online, e era tão raro usar papel para fazer trabalhos de casa – e tão frequente usar o sistema de armazenamento – que a noção de “esquecer” de alguma forma o trabalho e sair-se com uma desculpa dessas lhe pareceu completamente absurda. Você faz uma busca rápida por um cão robótico e compra-o com um clique, depois de selecionar algumas características particulares de que ele talvez goste, como um esqueleto de titânio reforçado, para ele poder montá-lo. Para o cartão que vai junto, você digita: “À cautela…” O cão chegará a casa dele dentro de uma janela de cinco minutos em relação à hora que você escolheu.

Você ainda pensa em beber outra chávena de café, mas um dispositivo háptico (“háptico” refere-se a tecnologia que envolve tato e sensações) inserido no tacão do seu sapato dá-lhe um beliscão suave, sinal de que chegará atrasado se se demorar mais. Talvez deite mão a uma maçã antes de sair, para a ir roendo no assento traseiro do carro, enquanto ele o conduz ao escritório.[1]

A Nova Era Digital é um livro obrigatório para quem é apaixonado por tecnologia… e dá um bom presente de Natal. Está editado em Portugal pela Dom Quixote.

[1] Eric Schmit & Jared Cohen, A Nova Era Digital, pp. 41-43.
comments powered by Disqus
Navegação completa
A carregar...