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Há muitos anos que me interrogo sobre o trabalho que a Associação Portuguesa de DJs (APDJS) desenvolve. E confesso que nunca a levei a sério. Afinal, como é que se pode levar a sério uma associação que se apresenta desta maneira:

[Quem somos] Somos um organismo LEGAL criado com firme objectivo: Repor o DJ no lugar que deve ter na industria hoteleira e, mais precisamente nos espaços de diversão nocturna. Somos um grupo de pessoas escolhidos pelas suas capacidades por um lado adultos e, por outros jovens com o objectivo de serem activos e eficazes!
[Os nossos objectivos] Ser um grupo coeso e correcto na noite em Portugal.
Levar a bom porto toda a juventude que se inicia, dando condições aos profissionais para que um dia possam dizer: Fui, sou, e sempre serei DJ com muito gosto !!![1]

Para além da falta de rigor e do mau gosto evidente, de que o site e os respetivos textos são o expoente máximo, cedo se percebeu que a APDJS não contava com o apoio de nenhum DJ reputado. Para mim, era claro que uma associação de DJs apenas conseguiria sobreviver com o suporte dos seus profissionais. E sem uma única figura respeitada da profissão a dar a cara pela associação, não era crível que ela se mantivesse ativa por muito tempo.

Por outro lado, sempre senti que a profissão de disc jockey devia ter mais regulação. Sendo DJ profissional há largos anos, considerava que a profissão precisava de uma associação forte que defendesse os seus interesses e a organizasse. Mas, com tanta falta de rigor, esta associação envergonhava-me.

Durante alguns anos, a minha curiosidade conduziu-me esporadicamente ao site da APDJS. Queria saber o que andava a fazer e mantinha a esperança de que a cessação da sua atividade estivesse iminente. Para minha surpresa, a associação estava mais viva a cada dia que passava. Sob a figura de Nélson Vaz, DJ e criador da associação, a APDJS desmultiplicava-se em iniciativas, reuniões e operações de charme com outras conhecidas organizações nacionais como a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), a PassMúsica ou a Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC).

A minha ingenuidade fez-me acreditar que a APDJS nunca conseguiria negociar fosse o que fosse com estas instituições. A qualidade dos textos punha a nu o ridículo da associação e seria o suficiente para a descredibilizar. Enganei-me.

Enganei-me porque não contei que a inércia dos DJs portugueses – entre os quais eu me incluo – face à APDJS fosse proporcionar o desenvolvimento de uma associação grotesca e com a qual ninguém se identifica. E, diga-se em abono da verdade, o problema de fundo é que ninguém fez nada para a travar.

A nova licença, que a APDJS desenvolveu em conjunto com a SPA e a PassMúsica, instalou a polémica entre os DJs portugueses, que, pela primeira vez, se manifestaram publicamente contra a associação. É irónico: a melhor iniciativa que esta associação desenvolveu até ao momento está a servir de pretexto para o ataque mais contundente dos profissionais do setor em relação à APDJS.

Vamos separar o trigo do joio. A licença para DJs é uma boa ideia. Em primeiro lugar, porque pretende regular mais a atividade, deixando de ser aceitável que um DJ trabalhe exclusivamente com música não comprada. Em segundo lugar, porque a licença prevê o envio das playlists para a SPA e PassMúsica, contribuindo assim para uma repartição mais justa dos direitos de autor e direitos conexos. Era, aliás, o que devia exigir a SPA e a PassMúsica de todos os estabelecimentos que difundem música publicamente: uma lista com os nomes dos artistas e das músicas que tocam realmente. Só assim teríamos uma repartição de direitos equitativa. Por último, a licença é sensível ao fenómeno do DJing atual. Todos sabemos que, por diversas razões, há músicas que não se encontram à venda.

Apesar de achar que a licença é uma boa ideia, considero que não passa disso mesmo: uma ideia. Porquê? Porque é demasiado cara e é vendida por uma associação que ninguém parece respeitar. Pessoalmente, continuarei a tocar com o computador. Não alterando o formato dos ficheiros, continuarei na legalidade e à espera de uma associação que represente verdadeiramente os DJs portugueses.

[1] APDJS, http://apdjs.pt/quem_somos.php (2012/03/16; 17h).
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