Fotografia: Androidella

The Future of Music: Manifesto for the Digital Music Revolution é um manifesto escrito em 2005, por Gerd Leonhard (na fotografia) e David Kusek, que proclamava um mundo em que, num futuro próximo, a música seria um consumo público como a água ou a eletricidade. Pessoalmente, não imagino coisa mais assustadora. No dia em que a música deixar de ser vendida, quantos artistas serão obrigados a desistir? Quantas músicas ficarão por compor?

De resto, a ideia de Leonhard e Kusek não é original. Foi David Bowie quem a prognosticou, em 2002, numa reportagem do New York Times. Bowie dizia que o melhor era aproveitar esses últimos tempos, porque os anos de ouro da indústria musical não regressariam mais.

Andrew Keen, em O Culto do Amadorismo, descreve um encontro que teve com um dos autores desse manifesto, num café famoso de São Francisco conhecido por oferecer concertos regulares ao sábado à tarde, em que os cantores de ópera locais dão espetáculos gratuitos para os frequentadores do café.

“Basta olhar à sua volta”, disse Gerd Leonhard, apontando para o café apinhado e ruidoso, “a música nunca foi tão popular”.

O público no Café Trieste parecia realmente cativado pela atuação das divas do café. O problema é que ninguém estava realmente a pagar por isso. O único dinheiro que mudava de mãos estava na venda de cappuccinos, pastelaria e refrigerantes. Era algo parecido com o que estava a acontecer numa escala muito mais vasta na Internet – a arte e a cultura a serem reduzidos a veículos para vender outros produtos.

É este o futuro da música? A servir de “isco” para vender outras coisas? Mais do que um consumo público como a água e a eletricidade, a música na revolução Web 2.0 poderá equivaler ao brinquedo de plástico que vem nas caixas de cornflakes.[1]

Se for este o futuro da música, preparemo-nos para um cataclismo cultural sem precedentes.

[1] Andrew Keen, O Culto do Amadorismo, p. 107.
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