Fotografia: Hussein Malla

Na última década do século XX, enquanto o acesso à Internet se popularizava, John Perry Barlow escrevia A Declaration of the Independence of Cyberspace e emergia como o grande líder do ciberespaço livre e independente, marcando o tom daquele que ainda hoje é o discurso de muitos ativistas da livre-informação.

A declaração de Barlow foi um protesto contra o Communications Decency Act, a primeira grande tentativa legislativa norte-americana para criminalizar a transmissão online de material ofensivo, sobretudo relacionado com pornografia, infrações de copyright e fraudes aos consumidores. Num tom inflamado, Barlow referiu-se à lei como “um assalto de uma cultura a outra cultura”.

O manifesto teve um sucesso imediato e retumbante, tendo sido partilhado por mais de cinco mil sites em todo o mundo, que se associaram ao protesto na defesa de uma Rede sem governos centralizados. “Para os netizens[1], a interferência externa é uma afronta ao seu credo libertário”, escrevia a revista norte-americana de negócios BusinessWeek, a propósito da reação popular à declaração de Barlow.

Tendo fundado, em 1990, a Electronic Frontier Foundation, uma organização sem fins lucrativos dedicada à defesa dos direitos dos netizens, Barlow tornou-se uma das vozes mais ativas na proteção da anarquia na Rede. A sua conceção do ciberespaço pode resumir-se em três ideias essenciais: 1) a de que o conceito jurídico de propriedade não faz sentido no mundo online e, por isso, não deve existir; 2) a de que os governos nacionais não estão mandatados para governar um espaço global sem fronteiras geográficas; e 3) a de que a experiência anárquica da Internet funciona bem, através de uma forma de governação (governance) assente numa denominada ética social[2] e num espaço político definido pela arquitetura da Web[3].

As convicções de Barlow são reveladoras porque ajudam a perceber que, por mais sensata e equilibrada que possa ser, qualquer tentativa de regulação será rejeitada e veementemente combatida pelos partidários de Barlow, que na verdade não pretendem liberdade, mas uma Internet sacralizada a funcionar à margem da lei. A sua agenda não é a da democracia, mas a da anarquia. Trata-se de uma tendência social libertária que não se revê nos desígnios da democracia nem nos Estados de Direito democráticos. Não reconhece legitimidade a quaisquer poderes políticos para legislar a Internet, mesmo os que resultam de eleições sufragadas pelos cidadãos.

Partilhando, no essencial, a mesma visão libertária de Barlow, o WikiLeaks é um dos grupos ativistas da livre-informação mais populares, em grande parte devido à mediatização provocada pelas fugas de informação massivas que promoveu nos últimos anos. O lema que assume – “privacidade para os fracos, transparência para os poderosos” (Assange et al., 2012: 7) – é elucidativo: por um lado, demonstra a leviandade dos líderes e o desprezo que têm pelas instituições democráticas; por outro, coloca a questão do “poder discricionário: quem é que em última instância decide qual a informação que deve ser divulgada, e qual deve ser omitida, ao menos temporariamente?” (Schmidt e Cohen, 2013: 56).

Os simpatizantes desta organização, cujo cofundador e embaixador mais destacado é Julian Assange, “defendem que uma maior transparência em todas as coisas levará a um mundo mais justo, mais seguro e mais livre” (Schmidt e Cohen, 2013: 54). Dito por outras palavras, acreditam que um dia deixará de haver segredos e barreiras no acesso à informação, que o mundo vai ser totalmente aberto e o planeta se vai transformar numa bola de cristal. A ideia é encantadora, mas, para além de ingénua, pode ser perigosa.

Embora os seus ideais pareçam nobres, o extremismo político é a marca dominante dos membros e apoiantes do grupo. Os “defensores do WikiLeaks e dos valores que promove vêm de todos os quadrantes, desde os libertários de extrema-direita até aos liberais de extrema-esquerda, passando pelos entusiastas de tecnologia apolíticos” (Schmidt e Cohen, 2013: 54). Impulsionadores do uso da criptografia como forma de proteger as comunicações pessoais perante os governos, são uma espécie de caçadores da verdade, de justiceiros modernos, que, ao contrário do poder político democrático, não são mandatados pelos cidadãos.

Aliados do WikiLeaks e de John Perry Barlow na luta pela manutenção da anarquia na Rede, os Anonymous são um grupo justiceiro de hackers que usa e abusa da palavra “liberdade” na sua propaganda. A sua influência é de tal ordem que, em 2012, a revista Time incluiu-os na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo.

Os seus apoiantes são muitas vezes apelidados de “hacktivistas”, um nome para caracterizar os hackers que transportam uma mensagem ativista. Acreditam que a Internet e a informação devem ser livres, embora não respeitem a liberdade de expressão dos outros: é habitual atacarem os sites de quem discorda deles. Alegam que não têm estrutura ou líderes, e “as poucas regras que o grupo estabeleceu são uma reminiscência do filme Clube de Combate: não falem sobre os Anonymous, nunca revelem a vossa identidade verdadeira e não ataquem os media” (Olson, 2012: 19-20), porque são eles que propagam as mensagens.

Parmy Olson (2012: 19-20), uma jornalista da Forbes que investigou vários elementos do grupo, reconhece que “o anonimato torna mais fácil praticar todo o tipo de atividades ilegais, desde invadir servidores, roubar a informação dos clientes de uma empresa ou colocar um site offline e depois desfigurá-lo”. Não será exagero dizer que os Anonymous são um perigoso grupo extremista online que, disfarçado pela aparente nobreza da causa que defende, não olha a meios para atingir os fins. A contradição não podia ser maior: em nome da liberdade que tanto apregoam, os Anonymous retiram, deliberada, reiterada e ilegalmente, a liberdade daqueles que não concordam com as suas ideias.

Oxblood Ruffin, um membro do grupo de hackers Cult of the Dead Cow, que, embora partilhe das preocupações dos Anonymous, não se revê no radicalismo das suas ações, desabafa: “Houve gente que morreu a proteger direitos como a liberdade de expressão; de repente, temos um grupo de vigilantes a decidir quem pode falar e a determinar quem tem acesso a esse discurso”.

Tal como os apoiantes do WikiLeaks, os Anonymous orgulham-se de desafiar os poderes instituídos e arrogam-se o direito de fazer justiça pelas próprias mãos. É-lhes indiferente que das suas ações resultem mortes, acusações precipitadas de pessoas inocentes ou incidentes diplomáticos graves. Por muito respeitadas que possam ser as reivindicações, os seus atos são injustificáveis. Sermos condescendentes com a atividade destes grupos seria como aceitarmos ter um grupo de vigilantes no mundo físico que, em nome da liberdade, sabotasse, vandalizasse e assaltasse. Não é por acaso que os norte-americanos já receiam mais os hackers do que o governo, no que diz respeito à proteção da sua privacidade online.

Todos estes grupos, embora diferentes entre si, têm características semelhantes e lutam por uma causa comum: a promoção, a todo o custo, da anarquia no ciberespaço, utilizando, como engodos para justificar a desregulação da Internet, as promessas da “liberdade” e da “informação livre”.

[1] O termo netizen resulta da aglutinação de duas palavras, citizen (cidadão) e Internet. Pode traduzir-se, simplificadamente, como ‘cidadão da Internet’. É utilizado para descrever uma pessoa ou entidade que se envolve ativamente em comunidades online com o objetivo de desenvolver e melhorar o ciberespaço, sobretudo no que diz respeito ao acesso aberto e à liberdade de expressão na Internet.

[2] Barlow refere-se à ética social no sentido em que, apesar da ausência de lei, as transações sociais e económicas no ciberespaço têm, segundo ele, funcionado bem.

[3] Barlow defende que a ideia de liberdade está projetada na própria arquitetura da Web: “as pessoas que projetaram a Internet tinham uma noção muito boa do que estavam a fazer – do tipo de espaço que estavam a criar e quais as características que teria”.

Referências bibliográficas

Assange, J. et al., 2012. Cypherpunks - Freedom and the Future of the Internet, New York: OR Books.
Hauben, M.; Hauben, R., 1997. Netizens: On the History and Impact of Usenet and the Internet, Los Alamitos: IEEE Computer Society.
Olson, P., 2012. We Are Anonymous. [livro eletrónico] New York: Little, Brown and Company.
Schmidt, E.; Cohen, J., 2013. A Nova Era Digital, Alfragide: Dom Quixote.
comments powered by Disqus
Navegação completa
A carregar...