Fotografia: Ryan McGuire

São 23 horas. Chove torrencialmente. Saio do carro a correr para fintar a chuva e entro no pavilhão onde vou tocar daqui por duas horas. Ao passar pela entrada, um dos organizadores do evento apresenta-se e pede-me, simpaticamente, para que me deixe fotografar. Acedo, apesar de não gostar de ser fotografado. É irónico: escolhi uma profissão que me obriga a lidar diretamente com o público, quando sempre me assustei com acontecimentos sociais e aglomerados de gente. Gostava de ter uma explicação razoável para esse desconforto, que chega a ser pavor, mas atribuo-o a heranças familiares. E quanto mais os anos passam, mais dificuldades tenho em lidar com isso. “Somos todos atores sociais”, penso para mim, transformando a teoria de Goffman em processo de autoajuda.

Quando entro no recinto, surpreendo-me positivamente. Não porque estivesse à espera de uma má noite, mas porque os anos de DJing que tenho acumulados me ensinaram a moderar as expectativas, uma técnica de defesa a que recorro para lidar com a desilusão.

Apesar da ainda estar pouca gente, o ambiente é vibrante. Há qualquer coisa no ar que me leva a pressentir, pela primeira vez, que a noite vai ser boa. Os gestos, os risos fáceis e o à-vontade das pessoas, que se envolvem harmoniosamente com as características do espaço, dão-me essa perceção. Ainda assim, estou tenso. Uma noite é feita de vários imponderáveis que, a qualquer momento, podem estragar a atmosfera inicial.

O DJ que me precede já está a tocar. A música é apropriada para o momento. Isso ajuda. Ou melhor, é determinante. O warm up é absolutamente decisivo na construção do ambiente. Se for bom, dá as coordenadas para o que vem a seguir. Raramente vejo um mau aquecimento resultar numa grande noite.

As pessoas continuam a chegar, apesar da chuva intensa. Converso com amigos que já não vejo há algum tempo; reconheço caras conhecidas. Sossego. À medida que se aproxima a hora de entrar na cabina, inquieto-me. Respiro fundo. Fumo um cigarro. Falam comigo, mas eu já não ouço. Tento antecipar mentalmente o início do set e o tema com que vou começar. “Rutura ou continuidade? Um tema familiar ou desconhecido? Se a música que está a tocar é boa e o clima favorável, porquê divergir?” Opto pela continuidade e pela segurança do tema já conhecido. Embora não seja irremediável, o início é importante. Marca o tom do set.

Fazem-me sinal de que está na hora. A tensão sobe. Entro na cabina, tiro o casaco e olho para as pessoas. Minto: leio-as. Leio-as e interpreto-as como se fossem palavras desordenadas que apenas precisam de ser recompostas para produzirem sentido. E, durante largos minutos, todo o meu raciocínio se resume a uma só coisa: a escolha da música de abertura.

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