Fotografia: Cinemablography

Depois de ler umas dezenas de páginas de A Nova Era Digital, de Eric Schmidt e Jared Cohen, fico com a desconfortável sensação de que estou a viver na Idade da Pedra. O que verdadeiramente impressiona é que, embora o livro faça uma antevisão do futuro mais ou menos próximo, os prognósticos dos autores são fundamentados por tecnologias que já existem e/ou que estão a ser desenvolvidas neste momento.

Segundo os autores, alguns conceitos populares da ficção científica estão já a ser transformados em realidade:

carros sem condutor, movimento robótico controlado pelo nosso cérebro, inteligência artificial (IA) e realidade virtual plenamente integrada e em tamanho real, o que nos promete uma camada visual de informação digital aposta ao nosso habitat físico. (…)

Será assim o nosso futuro, e estas coisas admiráveis estão desde já a tomar forma. É isso que torna tão empolgante trabalhar na indústria da tecnologia.[1]

Em relação aos carros autómatos, os dois responsáveis máximos da empresa mais poderosa do setor das tecnologias prometem maior segurança nas estradas:

está iminente a generalização dos automóveis sem condutor. A frota de carros sem motorista da Google, construída por uma equipa de engenheiros da Google e da Universidade de Stanford, já percorreu centenas de milhares de quilómetros sem o menor incidente, e depressa se lhe juntarão na estrada outros modelos. Em vez de abolir completamente o condutor, o primeiro passo consistirá numa “assistência à condução”, em que a opção sem-condutor pode ser ligada, tal como num avião é ligado o piloto automático. As autoridades governamentais americanas estão já bem industriadas no tema dos carros sem condutor e seu potencial: em 2012, o Estado do Nevada tornou-se o primeiro Estado americano a emitir licenças para carros sem condutor e, mais tarde nesse mesmo ano, também a Califórnia declarou a sua legalidade. Imaginem-se as possibilidades para o ramo da camionagem de longo curso… Em vez de se testarem os limites biológicos dos motoristas em tiradas de 30 horas, o computador pode assumir a responsabilidade principal e conduzir o camião durante algumas etapas enquanto o motorista descansa.[2]

Quanto à robótica e à inteligência artificial, Eric Schmidt e Jared Cohen levantam o véu do que aí vem:

As futuras variações dos robôs domésticos deverão ser capazes de ocupar-se com relativa facilidade de outras tarefas domésticas, de trabalhos de eletricidade e até de problemas de canalizações. (…)

Os interfaces gestuais depressa saltarão do mundo dos jogos e do espetáculo para áreas mais funcionais: os ecrãs informativos futuristas que tanto destaque tiveram no filme Relatório Minoritário – no qual Tom Cruise recorria a tecnologia gestual e imagens holográficas para solucionar crimes num computador – são apenas o começo. Aliás, já ultrapassámos essa fase. O trabalho realmente apaixonante, hoje em dia, é a conceção de “robôs sociais” capazes de reconhecer os gestos humanos e de reagir a eles adequadamente, como o cão de brinquedo que se senta quando alguém faz um gesto de comando.

(…) Nos últimos anos, tem havido uma emocionante série de descobertas no domínio da tecnologia de controlo mental do movimento (dirigir o movimento só com o pensamento).[3]

A robótica proporcionará ainda progressos significativos e revolucionários na medicina e na saúde:

A capacidade de diagnóstico do seu telemóvel será coisa de antigamente. É evidente que poderemos fazer um scan das partes do organismo, tal como hoje se faz um scan do código de barras. Mas cedo começaremos a beneficiar de uma gama de trunfos físicos destinados a monitorizar o nosso bem-estar, como robôs microscópicos correndo no nosso sistema sanguíneo para medirem a tensão arterial ou para detetarem os primeiros sintomas de doença cardíaca e identificarem cancros em fase inicial.[4]

Outro domínio em desenvolvimento acelerado é o da realidade virtual:

A videografia e a fotografia do futuro permitirão que quaisquer imagens estáticas ou em movimento previamente gravadas sejam projetadas sob forma de holograma tridimensional. Mais notável ainda: será possível integrar quaisquer fotos, vídeos ou cenários geográficos que decida gravar num único dispositivo holográfico que poderá colocar no chão da sala, transformando-a instantaneamente numa sala de memória. Os casais poderão recriar a cerimónia do seu casamento em benefício dos avós que não puderam estar presentes devido a uma doença.

(…) O entretenimento tornar-se-á, no futuro, uma experiência mais absorvente e personalizada. (…) Se está aborrecido e lhe apetece tirar uma hora de férias, porque não ligar a caixa de hologramas e ver o carnaval do Rio? Se está cansado, porque não passar uns minutos num areal das Maldivas? Acha que os seus filhos estão a ficar mimados? Eles que passeiem uns minutos pelo bairro da lata de Dharavi, em Bombaim. Irritado com a cobertura mediática dos Jogos Olímpicos, que decorrem num fuso horário diferente? Compre um passe holográfico por um preço razoável e veja a equipa de ginástica feminina competir ao vivo ali mesmo à sua frente. Através de interfaces de realidade virtual e de projetores de hologramas ser-lhe-á possível “juntar-se” a essas atividades no próprio momento em que decorrem e vivê-las como se realmente lá estivesse. Nada se compara ao acontecimento real, mas isto virá num segundo lugar muito renhido. E, quanto mais não seja, sairá muito mais barato.[5]

O futuro está já aqui ao lado… mas eu confesso que estou com algumas dificuldades em virar o pescoço.

[1] Eric Schmidt & Jared Cohen, A Nova Era Digital, pp. 15-16.
[2] Ibidem, p. 37.
[3] Ibidem, pp. 28-29.
[4] Ibidem, pp. 37-38.
[5] Ibidem, pp. 35-36.
comments powered by Disqus
Navegação completa
A carregar...