Fotografia: Wired

Durante uma conversa com um colega de profissão, percebi que a Serato tinha finalmente introduzido a função sync no programa da marca. Para quem não sabe, o sync é uma função que permite acertar as batidas das músicas automaticamente. Com ela, os DJs não têm de perder tempo a sincronizar dois temas com tempos diferentes. Basta clicar no botão e, voilá, as músicas estão sincronizadas e prontas a ser misturadas.

Esta função, que há muitos anos existe no Traktor e noutros programas, tem sido tema de discussão acesa entre profissionais e curiosos do ofício. Os mais fundamentalistas chegam ao cúmulo de dizer que quem não sabe acertar batidas não é um verdadeiro disc jockey. E qualquer DJ que numa rede social se aventure a admitir que usa o sync no seu trabalho é imediatamente estigmatizado e achincalhado. No essencial, esta função não traz nada de novo; é apenas mais um passo para a automatização do DJing, um fenómeno que é transversal a tantas outras profissões.

Durante muitos anos, sobretudo a partir de finais dos anos 60, nos EUA, acertar batidas foi uma das componentes mais valorizadas no trabalho de disc jockey. Essa sobrevalorização não era por acaso. Essencialmente, havia duas razões que a justificavam: era uma técnica pioneira e tinha um grau de dificuldade elevado.

Embora não tenha sido o criador deste estilo de mistura, é relativamente consensual que foi Francis Grasso quem popularizou o beatmatching. Com uma sensibilidade rítmica acima da média – Grasso começou por ser bailarino –, este DJ norte-americano é ainda hoje lembrado pelas suas longas misturas, nas quais mantinha duas músicas sincronizadas durante dois ou mais minutos.

O impressionante em Grasso é que ele fazia tudo isto sem ajustar a velocidade das músicas – naquela época, o pitch ainda não existia. Para dificultar, os tempos das músicas tinham oscilações tremendas, porque eram gravadas por músicos de carne e osso e sem recurso a metrónomos. Como era isto possível? Grasso era obrigado a fazer uma seleção rigorosa das músicas que tinham os mesmos tempos e das partes que encaixavam na perfeição.

Hoje, acertar as batidas é um trabalho que requer cada vez menos perícia: para além das oscilações de tempo serem praticamente inexistentes, especialmente devido aos efeitos da sequenciação automática, uma grande percentagem das músicas que os DJs tocam tem um intervalo curtíssimo de batidas por minuto. Conclusão: nunca como hoje foi tão fácil acertar batidas, com ou sem a ajuda do pitch.

Daí não fazer qualquer sentido o estigma que se criou à volta da função sync. Aquilo que é olhado com desconfiança devia ser encarado com naturalidade. Afinal, é apenas mais uma ferramenta ao serviço do DJ, como foram noutras épocas o gira-discos, o pitch e o computador.

Ter dificuldade em aceitar esta realidade é não perceber que o trabalho de disc jockey é, ou devia ser, muito mais do que acertar umas batidas. E quem ainda não entendeu isto, prepare-se, porque a componente técnica da profissão tenderá a ser menos valorizada quanto mais a tecnologia automatizar os processos de trabalho. Goste-se ou não, a tendência de automação é imparável e transversal a quase todas as áreas profissionais. O DJing não é exceção.

Apesar de reconhecer que os perigos associados aos avanços tecnológicos são sérios – em última análise,  são muitas as profissões que correm o risco de desaparecer num futuro próximo –, a ideia de que o sync não pode ser usado é disparatada. Sejamos racionais: não passa pela cabeça de ninguém que um designer não use todas as funções do Photoshop, ou um escritor não possa recorrer ao corretor automático de um processador de texto.

Serei um herege e um malfeitor?

comments powered by Disqus
Navegação completa
A carregar...