Fotografia: BetweenTheLines

Li-o a espaços, interrompi-o diversas vezes e li as últimas 300 páginas de uma assentada. A biografia de Steve Jobs, escrita por Walter Isaacson, é um verdadeiro tratado de gestão. Para quem gosta do mundo empresarial, de tecnologia e design, é um livro obrigatório. Primeiro, porque descreve com algum detalhe a vida de uma das marcas mais valiosas e inovadoras da atualidade. O que, por si só, já é suficientemente estimulante. Depois, porque demonstra que o sucesso de uma empresa não obedece a fórmulas traçadas a regra e esquadro.

Steve Jobs não era um empresário convencional: mantinha uma relação tumultuosa e autoritária com os funcionários; acreditava na intuição e desprezava os estudos de mercado; tinha uma obsessão pelo controlo, que tanto se manifestava nas suas relações com a imprensa como no desenvolvimento de produtos integrados “extremo-a-extremo”; e era obcecado pelo design. Um dos exemplos mais reveladores e radicais dessa obstinação e do seu perfecionismo

surgiu quando ele examinou ao pormenor a placa de circuitos impressos sobre a qual seriam montados os chips e outras componentes, bem no interior do Macintosh. Nenhum consumidor iria alguma vez vê-la. Mas Steve Jobs começou a criticá-la com critérios estéticos. “Essa peça é bem bonita”, disse. “Mas vejam os chips de memória. São feios. As linhas estão demasiado juntas.” Um dos novos engenheiros interrompeu-o e perguntou por que razão era isso importante. “A única coisa importante é que funcione bem. Ninguém vai ver a placa do PC.” Steve Jobs teve uma reação típica: “Quero que seja o mais bonita possível, mesmo que esteja dentro da caixa. Um grande marceneiro não vai utilizar madeira de má qualidade nas costas de um armário, mesmo que ninguém o vá ver.”[1]

Jobs menosprezava as teorias de gestão e as análises de mercado, dirigindo a Apple com mão de ferro, muitas vezes contra a própria administração, fazendo prevalecer a sua insolência, intuição e teimosia. Discordava da ideia de que uma empresa deve dar aos clientes aquilo que eles querem, e tinha uma visão original:

A nossa missão consiste em antecipar aquilo que eles vão querer. Penso que o Henri Ford teria dito uma vez que se perguntasse aos clientes aquilo que eles queriam, a resposta teria sido: “Um cavalo mais rápido!”. As pessoas não sabem o que querem antes de lho mostrarmos. É por isso que não confio nos estudos de mercado. A nossa missão consiste em ler as coisas antes de elas terem sido escritas.”[2]

Steve Jobs foi um visionário. É verdade que teve condições para isso: estava no sítio certo à hora certa. Mas não desperdiçou o boom tecnológico de Silicon Valley, construindo umas das marcas mais valiosas do setor das tecnologias e revolucionando seis indústrias: os computadores pessoais (Mac), o cinema de animação (Pixar), a música (iTunes), os telefones (iPhone), os tablets (iPad) e a edição digital (Final Cut Pro e Logic Pro). É obra.

A saga de Steve Jobs é o mito da criação de Silicon Valley: criar uma pequena empresa numa proverbial garagem e transformá-la na empresa mais valiosa do mundo. Ele não inventava muitas coisas por inteiro sozinho, mas era um mestre a juntar as ideias, a arte e a tecnologia de modo a inventar o futuro.[3]

Jobs era controverso. Despertou muitas paixões e muitos ódios. Mas, simpatize-se ou não com a figura, é unânime o reconhecimento de que o sucesso da Apple se deve, em primeiro lugar, à sua visão. Neste tempo incerto, em que a profunda crise económica nos inibe de sonhar e criar, são histórias como estas que inspiram. Muito mais do que tratados teóricos e inócuos sobre empreendedorismo.

[1] Walter Isaacson, Steve Jobs, p. 183.
[2] Ibidem, p. 704.
[3] Ibidem, p. 702.
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