Em Julho de 2006, fui convidado para criar e liderar um novo projecto na noite de Leiria. Ainda sem nome definido, comecei por elaborar um plano simples com os objectivos a que me propunha. Pretendia um espaço despretensioso, sem acessórios, irreverente, em que a música de dança electrónica tivesse o papel dominante. Uma casa em que a música fosse a razão da sua existência.

Comecei pelo nome. Pensei inicialmente em ‘Sushi Electronic’. Mas imediatamente dei por mim a pensar no nome em português. Tenho a tendência de gostar de nomes portugueses. Soam-me melhor, não sei explicar porquê. Pretendia um nome directo, que as pessoas ouvissem e pudessem imediatamente associar à música electrónica. Depois de o ter escolhido, pedi a opinião de alguns amigos. Alguns acharam o nome ‘Sushi Electrónica’ fraco. Não me conseguiram explicar porquê, mas acharam-no fraco. ‘[email protected]’, ‘Sashimi’, ‘Sushi Ice’ e ‘Sushi Fresh’ foram alguns dos nomes que me propuseram. Todos eles tinham, para mim, um defeito óbvio: nenhum deles transmitia uma mensagem clara do que era o novo espaço. Ficou ‘Sushi Electrónica’. O nome soava-me bem e a ideia apareceu-me espontaneamente. Um nome mais directo era difícil de conseguir.

Passei então à segunda fase: escolher o DJ residente que me iria acompanhar. A Rita Zukt tinha todos os ingredientes que eu procurava: irreverência, energia, originalidade, jovialidade e vanguardismo. Tudo isto conciliado com uma leitura de pista inteligente. Expliquei-lhe o projecto e ela ficou bastante entusiasmada desde o início.

Terceira fase: a comunicação. Pretendia uma comunicação agressiva, original e irreverente. Que fosse uma pedrada no charco. A comunicação das discotecas em geral era fraquíssima, roçava o medíocre. Logo, uma comunicação original e inteligente seria um ingrediente essencial na diferenciação da casa. Para levar a cabo parte desse trabalho, o Paulo Fuentez era, para mim, o designer gráfico mais adequado. O trabalho que ele tinha desenvolvido no Alibi, um ano antes, tinha-me chamado a atenção. Já tinha experiência e provas dadas. Isso agradava-me. Começámos por trabalhar no logótipo. Apresentou-me vários e eu optei por aquele que ele menos gostou. A razão foi simples: gostei da componente orgânica que o logótipo transmitia. Já tendo a carga intensa da palavra ‘electrónica’ incluída, achei que seria positivo preservar um lado mais orgânico, mais humano, mais ligado às pessoas. Passámos então à elaboração do site. A minha ideia era ter um site simples, prático e um design que aproveitasse elementos decorativos da própria casa, de modo a conferir uma maior coerência visual.

A última fase passou pela escolha do staff. Pretendia pessoas que falassem a mesma linguagem, que se identificassem com o conceito do projecto. O requisito mínimo era gostarem de música de dança electrónica. Numa casa tão específica como esta, ter pessoas atrás de um bar que não se identificassem com a música que estavam a ouvir era meio caminho andado para um marketing negativo. Com o tempo, poderia levar a situações insustentáveis para ambas as partes.

Este foi o início de uma das casas em que eu mais gostei de trabalhar. Uma experiência única. Superei todos os objectivos a que me tinha proposto. Alguns vaticinaram o fim da Sushi Electrónica em seis meses, os mais optimistas deram um ano. Mas a Sushi Electrónica continua viva e cheia de saúde ao fim de ano e meio. Tive um público fora de série e noites inesquecíveis. Têm sido muitas as pessoas que, de vários pontos do país, me vão dizendo que a Sushi Electrónica é uma casa única em Portugal. Sinto orgulho. Mas é óbvio que todos os que trabalham e que trabalharam na Sushi Electrónica são, cada um à sua maneira, responsáveis por isso. E a todos, sem excepção, agradeço.

Isto tudo para dizer que já não estou na Sushi Electrónica. Ontem foi o meu último Sábado. Tive duas excelentes últimas noites. Desejo a maior sorte a quem me substituir. Gostaria que o conceito da casa se mantivesse e, de preferência, com sucesso. A vida funciona por ciclos e acredito que o meu ciclo de Sushi Electrónica chegou ao fim. Vou continuar a usufruir da Sushi Electrónica mas, a partir de agora, como cliente. Um abraço especial a todos os clientes, amigos, staff e ex-staff da Sushi Electrónica, que acreditaram no projecto tanto como eu.

Are You Ready To Lose Any Sleep Over It? ZZZzzzz…

comments powered by Disqus
Navegação completa
A carregar...