Fotografia: O Artista

A polémica estala sempre quando se fala da função sync. Muitas pessoas entenderam o meu artigo Quando o sync matou o beatmatching como um incitamento ao uso do sync, quando eu apenas defendi a não diabolização das pessoas que o utilizam. Encaro-o com naturalidade; como mais uma ferramenta ao serviço do DJ. Nunca disse que utilizar o sync transformava os maus em bons DJs, da mesma maneira que não disse o contrário. Não fiz juízos de valor.

Nesse texto, apenas quis dizer que a tecnologia altera de forma profunda os modelos nos quais assentam algumas profissões. Inevitavelmente, nós passamos a desvalorizar certas características que dantes valorizávamos; e, pelo contrário, passamos a dar mais valor a outros aspetos que dantes não dávamos. E à medida que a tecnologia vai automatizando os processos de trabalho, esses processos concretos tendem a perder importância. Por outras palavras, a valorização da profissão passa a fazer-se a partir de outro quadro referencial.

Por exemplo, uma das mais-valias de um taxista era o conhecimento que tinha de uma determinada área geográfica ou o seu sentido de orientação. Agora, essas competências perderam importância, porque o GPS substituiu e amplificou artificialmente essas capacidades. Dizer isto não significa que eu ache que a aprendizagem dessas competências deixam de ser necessárias. Em caso de avaria da máquina, é importante que um profissional esteja apto a assegurar a execução do trabalho. Mas é natural que essas aptidões percam valor relativo face a outras. Por exemplo, no caso do DJing, é provável que os elementos humanos do DJ – a capacidade de comunicar, entreter e filtrar – venham a assumir uma relevância maior no futuro, porque qualquer criança, carregando apenas num botão, será capaz de acertar batidas.

Eu percebo que isto possa ser difícil de aceitar. As pessoas que sempre viram o beatmatching como uma componente decisiva do DJing olham agora para o botão sync com inquietação e revolta, porque os grandes alicerces nos quais sustentaram anos de trabalho estão a ser postos em causa. É o fenómeno que Umberto Eco designou por “medo eterno: o medo de que uma nova descoberta tecnológica possa abolir ou destruir algo que consideramos precioso, produtivo, algo que representa para nós um valor em si, e um valor profundamente espiritual”.

Foi mais ou menos aquilo que eu senti quando vi uma única peça – o computador – praticamente substituir o meu estúdio; ou quando percebi que a Internet estava a destruir o valor económico da música. Goste-se ou não, o tempo não volta para trás. Para o bem e para o mal, a evolução tecnológica tem sido imparável.

Um excelente exemplo desse medo eterno está belissimamente retratado no filme de Michel Hazanavicius, O Artista. Embora o filme sonoro seja hoje um dado adquirido, houve, no momento de transição do cinema mudo para o falado, quem acreditasse que o som iria destruir a essência do cinema. Alguém hoje acredita nisso?

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