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Resumo

Várias investigações sobre usabilidade mostram que a leitura na Web é tipicamente descontínua e fragmentada. Uma das razões apontadas para este fenómeno é o facto de a leitura em computadores ser desconfortável. Porém, os avanços tecnológicos têm permitido melhorar substancialmente a qualidade dos monitores de diversos dispositivos, um fator que pode estar a facilitar a leitura longa e ininterrupta. Este estudo tem como propósito avaliar se o suporte utilizado pode exercer uma influência na capacidade de leitura contínua online, contribuindo para a usabilidade dos sites noticiosos. Os dados recolhidos mostram que não só o suporte a partir do qual se acede a sites de notícias pode tornar mais confortável a leitura ininterrupta online, como esse conforto se traduz em leituras mais regulares.

Introdução

O conceito de usabilidade Web está relacionado com a facilidade de uso e a qualidade da interação que um site proporciona aos seus utilizadores. Na grande maioria dos casos, os sites não são simples peças decorativas: têm como função distribuir informação e são produzidos em função de objetivos concretos. De que serve um site se os seus utilizadores não conseguem manuseá-lo? A usabilidade Web não é mais do que facilitar o uso de um site, de modo a garantir que a sua utilização é eficaz, eficiente, satisfatória e memorável (cf. Nielsen & Loranger, 2006: 365-371).

No caso dos sites de notícias, sendo o conteúdo sobretudo escrito, o texto reveste-se de especial importância. Um estudo de 2004, conduzido pelo The Poynter Institute, constatou que as manchetes e os textos dos sites noticiosos chamam mais a atenção do que as imagens (cf. The Poynter Institute, 2004). Sturgill, Pierce e Wang (2010: 3) confirmam que o conteúdo – ou a informação – é o principal produto de um site noticioso, sendo o fator determinante na escolha dos utilizadores e na satisfação que lhes proporciona. Porém, várias investigações de Jakob Nielsen (cf. 1997a, 2008, 2013) mostram que a leitura na Internet é rápida e que raramente os utilizadores leem os textos do princípio ao fim, palavra a palavra. Em vez disso, leem apenas em pequenos fragmentos. Uma das razões apontadas para este comportamento é o facto de a leitura através de um monitor ser particularmente desconfortável para a visão.

Os avanços tecnológicos têm permitido melhorar, embora lentamente, as características dos monitores de diversos dispositivos. Nielsen dá o exemplo dos novos ecrãs de tablets e smartphones, com densidades de píxeis superiores a 220 PPI (píxeis por polegada), e sugere que “as pessoas podem estar dispostas a ler ainda mais em monitores de alta qualidade” (Nielsen 2012a). Assim, o propósito deste trabalho é avaliar se a sugestão de Nielsen se está a verificar, isto é, se o suporte a partir do qual se acede a sites noticiosos pode facilitar a leitura contínua e ininterrupta[1] online, contribuindo para a usabilidade dos sites de notícias. Por outro lado, verificar se essa usabilidade se traduz em leituras mais regulares. Para o efeito, elaborámos um pequeno questionário, com perguntas fechadas e semiabertas, distribuído na Internet por correio eletrónico e através das redes sociais Facebook, Google+ e Twitter. Deste modo, garantiu-se que todos os inquiridos eram utilizadores de Internet, condição fundamental para analisar o fenómeno da leitura de notícias online. Uma limitação deste estudo é o facto de não termos conseguido introduzir uma variável referente à resolução dos monitores dos inquiridos. Contudo, entendemos que a resposta a uma questão deste tipo implicaria um conhecimento técnico mais aprofundado, que nem todos os inquiridos estariam em condições de ter. Por isso, optámos por excluí-la do questionário.

Este trabalho está dividido em três capítulos: no primeiro, fazemos uma revisão da literatura sobre a temática da leitura online e da usabilidade de sites noticiosos; no segundo, descrevemos a metodologia utilizada neste trabalho de investigação; no terceiro, apresentamos os resultados dos questionários e analisamos a relação entre as variáveis. Por fim, nas conclusões, discutimos os resultados, verificamos a validade da hipótese de partida e propomos possíveis abordagens para futuras investigações.

1. Revisão da literatura

A usabilidade é não só facilitar o uso de um produto, como também é garantir que esse uso é eficaz, eficiente e satisfatório. Embora diferentes entre si, os conceitos de eficácia, eficiência e satisfação são reconhecidos por diversos autores (cf. Nielsen & Loranger, 2006: 365-371; Rubin & Chisnell, 2008: 4; Brinck et al., 2002: 2) como sendo indissociáveis da usabilidade. Genuis define-os com três perguntas:

Eficácia: os utilizadores conseguem realizar um determinada tarefa correta e completamente? Eficiência: quanto esforço é necessário para que os utilizadores realizem uma determinada tarefa correta e completamente? Satisfação: os utilizadores sentem-se confortáveis a ​​completar a tarefa designada e têm uma atitude positiva em relação à sua experiência? (Genuis, 2004)

O conforto está relacionado com a satisfação de uso. Embora nem sempre se correlacione com as métricas objetivas da usabilidade (cf. Nielsen, 2012b), a satisfação do utilizador pode contribuir para a usabilidade de um site, na medida em que quanto maior conforto um site proporcionar mais usável ele é. No caso dos sites noticiosos, Sturgill, Pierce e Wang (2010: 3) confirmam esta ideia e explicam que a usabilidade e a satisfação do utilizador são os dois principais fatores que pesam na escolha de um site de notícias. Sendo o conteúdo sobretudo escrito, o conforto de leitura reveste-se de especial importância.

Como resultado de uma investigação sobre usabilidade Web, em 1997, Nielsen escrevia que “raramente as pessoas leem as páginas Web palavra a palavra. Em vez disso, elas ‘varrem’ a página com o olhar, selecionando palavras individuais e frases” (Nielsen, 1997a). Num estudo mais recente, Hillesund diz que até os leitores mais experientes usam a Internet e os computadores para terem uma visão geral sobre um assunto. A navegação e a leitura diagonal – isto é, a leitura descontínua e fragmentada – são a norma (cf. Hillesund, 2010). Também Sturgill, Pierce e Wang (cf. 2010: 9), a partir dos dados recolhidos num estudo sobre o conteúdo de sites noticiosos, afirmam que os artigos online devem ser mais pequenos do que os artigos em papel. A maior parte dos participantes envolvidos na investigação procura apenas os factos principais. É, portanto, relativamente consensual que a leitura na Web, incluindo a de sites de notícias, é caracterizada pela leitura descontínua e fragmentada.

Uma das explicações para este fenómeno é o facto de a leitura em computadores ser desconfortável. Um estudo sobre a leitura digital, em 2010, conclui “que os monitores de computadores e portáteis são impróprios para a leitura [contínua e sustentada]” (Hillesund, 2010). Se, por um lado, “a leitura através de monitores de computadores é 25 por cento mais lenta do que em papel” (Nielsen, 1997b), por outro, ler num monitor “é como ler na lâmpada de uma lanterna. É relativamente fácil ler um pequeno texto, porém um texto mais longo cansa a vista em demasia” (Figueiredo, 2004: 58).

Sendo o conteúdo de sites noticiosos composto sobretudo por textos longos que exigem uma leitura contínua e ininterrupta, a relevância dos textos é fundamental. A fraca predisposição dos leitores para a leitura longa e contínua online tem de ser compensada pela relevância do conteúdo, uma característica que está diretamente relacionada com a satisfação do utilizador. Um estudo de Sturgill, Pierce e Wang (2010: 3) confirma que o conteúdo é o principal produto de um site noticioso e o fator determinante na escolha dos utilizadores e na satisfação que lhes proporciona. “A qualidade dos conteúdos, ou, pelo menos, a perceção do utilizador dessa qualidade, contribui para a sua satisfação” (Ibid.). Nielsen também concorda que “o conteúdo deve ser o ponto fulcral de um site” (Nielsen & Loranger, 2006: 4058), mas alerta para a importância das manchetes em sites noticiosos, dando o exemplo da BBC News como a referência máxima de usabilidade de sites de notícias: “comunicação precisa com um pequeno número de palavras” (Nielsen, 2009).

Sabemos que os avanços tecnológicos alteram as nossas experiências de uso – e as próprias diretrizes de usabilidade. Por exemplo, o uso de fontes com serifas, que Nielsen começou por desaconselhar (cf. Nielsen & Loranger, 2006: 3841), é hoje a norma da grande maioria dos sites noticiosos. Num estudo mais recente sobre a legibilidade do texto na Web, Nielsen reconhece que, pelo facto de a diferença de velocidade de leitura entre fontes – com e sem serifas – ser muito pequena, deixou de haver uma “diretriz de usabilidade forte a favor do uso de uma ou de outra” (Nielsen, 2012a). Embora sejam resistentes à mudança (cf. Nielsen, 2005), porque são sobretudo determinadas em função de fatores humanos, as diretrizes de usabilidade Web não são estáticas; vão-se alterando com o tempo.

Com os avanços tecnológicos, a qualidade dos monitores tem melhorado significativamente. Hillesund acredita que os novos dispositivos móveis, nomeadamente os e-readers, “criam boas condições para a transparência e proporcionam uma relação hermenêutica eficiente entre o utilizador e a tecnologia” (Hillesund, 2010). Para além disso, “cabem confortavelmente na mão e permitem que os utilizadores posicionem o corpo para a leitura” (Ibid.). Conclui que estes dispositivos móveis podem ser “boas alternativas para a leitura contínua” (Ibid.). Nielsen dá também o exemplo dos ecrãs dos novos tablets e smartphones, cuja qualidade é hoje muito superior, e dos computadores portáteis e de secretária com monitores e resoluções cada vez maiores. Como consequência, sugere que “as pessoas podem estar dispostas a ler ainda mais em monitores de alta qualidade” (Nielsen, 2012). Um estudo conduzido pelo Pew Internet, em 2012, confirma esta tendência e revelou que 54 por cento dos norte-americanos que leem notícias já o fazem a partir de dispositivos móveis, como smartphones, tablets e e-readers (Sonderman, 2012).

Estes indicadores sugerem que diferentes suportes podem ter um impacto diferente na usabilidade dos sites de notícias, nomeadamente através do conforto que conferem à leitura. É este o propósito deste trabalho: avaliar se o suporte a partir do qual se acede a sites noticiosos pode estar a facilitar a leitura contínua e ininterrupta online, e a contribuir para a usabilidade dos sites de notícias; ao mesmo tempo, certificar se essa usabilidade se traduz em leituras mais regulares.

2. Metodologia

De modo a avaliar se o suporte a partir do qual se acede a sites noticiosos pode facilitar a leitura de textos contínuos e ininterruptos online, foi elaborado um pequeno questionário, com perguntas fechadas e semiabertas, distribuído na Internet por correio eletrónico e através das redes sociais Facebook, Google+ e Twitter. Deste modo, garantiu-se que todos os inquiridos eram utilizadores de Internet, condição fundamental para analisar o fenómeno da leitura de notícias online.

O questionário era composto por 12 perguntas e tinha como tema mais amplo os hábitos de leitura de sites noticiosos em Portugal. Devido à dimensão reduzida deste trabalho, apenas foram analisadas as respostas de três perguntas. O questionário foi criado com a ajuda da plataforma Google Drive, que permite uma grande flexibilidade no tratamento dos dados. De modo a não influenciar o sentido das respostas, todas as opções de escolha foram colocadas por ordem alfabética. O universo deste estudo são todos os portugueses que utilizaram a Internet entre o dia 7 e 20 de janeiro de 2014.

Como há uma tendência para termos amigos que, de algum modo, se assemelham a nós, pedimos a pessoas nossas conhecidas que promovessem e distribuíssem o questionário pelos seus círculos pessoais e profissionais, de modo a assegurar a máxima diversidade de opiniões, hábitos, interesses, perceções e atitudes. O objetivo era garantir o maior número de sensibilidades possível.

O questionário foi distribuído entre o dia 7 e o dia 20 de janeiro de 2014 e obteve 126 respostas validadas. A amostra é constituída por: 68 homens (54 por cento) e 58 mulheres (41 por cento); 13 indivíduos com idades inferiores a 20 anos (10 por cento), 36 indivíduos com idades compreendidas entre os 20 e os 29 anos (29 por cento), 38 indivíduos com idades compreendidas entre os 30 e os 39 anos (30 por cento), 24 indivíduos com idades compreendidas entre os 40 e os 50 anos (19 por cento) e 15 indivíduos com idades superiores a 50 anos (12 por cento).

De notar que, do total dos inquiridos, um respondeu que não lê jornais online. Ainda assim, como o inquirido respondeu a todas as questões do questionário de forma consistente, optámos por validar as suas respostas. É provável que tenha sido um lapso.

3. Análise dos resultados

Neste capítulo, procedemos à apresentação dos resultados dos questionários e à análise das relações entre as variáveis. De forma a avaliar se o suporte a partir do qual se acede a sites noticiosos facilita a leitura de textos mais extensos online, introduzimos as variáveis “conforto de leitura” e “suporte” (Gráfico 1). Na variável “suporte”, incluímos os estados “computador portátil”, “computador de secretária”, “smartphone” e tablet”. Numa segunda fase (Gráfico 2), incluímos a variável-teste “frequência de leitura”, de modo a certificar se o conforto de leitura se traduz em leituras regulares.

A resolução dos monitores dos inquiridos teria sido uma variável interessante de explorar, uma vez que forneceria uma informação mais pormenorizada. Contudo, entendemos que a resposta a uma questão deste tipo implicaria um conhecimento técnico mais aprofundado, que nem todos os inquiridos estariam em condições de ter. Para não dificultar as respostas, optámos por excluí-la dos questionários.

Gráfico 1 - Respostas à pergunta "Sente-se confortável a ler longos textos online com mais de 4 mil caracteres?"

O Gráfico 1 mostra as respostas à pergunta “Sente-se confortável a ler longos textos online com mais de 4 mil caracteres?”, com as relações entre as variáveis nominais “suporte” e “conforto de leitura”. O objetivo é, pois, perceber se o suporte a partir do qual se lê pode ter influência no conforto/facilidade de leitura.

Do total das respostas, destaca-se que precisamente metade dos inquiridos (50 por cento do total da amostra) responde que se sente confortável a ler longos textos online. Só por si, este dado não é muito elucidativo, embora, à primeira vista, pareça contrariar a tese de que a leitura online é desconfortável. Quando muito, poder-se-á dizer que é desconfortável para o mesmo número de pessoas que considera a leitura confortável. Aquando da análise do Gráfico 2, ver-se-á se o desconforto pode ou não influenciar a frequência de leitura.

Introduzindo a variável “suporte”, sobressaem três desvios padrão:

  1. A resposta “Não. Embora acabe por ler se o assunto for do meu agrado”, dos inquiridos que utilizam tablets para ler online, sofre uma diminuição de 22 por cento em relação à percentagem média do total de inquiridos;
  2. A resposta “Sim, desde que o assunto me desperte interesse”, dos inquiridos que utilizam tablets para ler online, tem um aumento de 31 por cento face à percentagem média do total de inquiridos;
  3. A resposta “Não. Prefiro textos mais curtos”, dos inquiridos que utilizam smartphones para ler online, tem um aumento de 9 pontos percentuais em relação à percentagem média do total de inquiridos.

Estes dados sugerem que os inquiridos que usam tablets se sentem mais confortáveis a ler textos longos online, e que o interesse no assunto desempenha um papel determinante na sensação de conforto da leitura. Por outro lado, há uma tendência, ainda que subtil, para os inquiridos que utilizam smartphones preferirem textos mais curtos.

Gráfico 2 - Respostas à pergunta "Com que frequência lê longos textos online com mais de 4 mil caracteres?"

O Gráfico 2 mostra as respostas à pergunta “Com que frequência lê longos textos online com mais de 4 mil caracteres?”, com a relação da variável nominal “suporte” e a variável-teste ordinal “frequência de leitura”. O propósito desta pergunta é, por um lado, atestar a consistência das respostas do Gráfico 1 e, por outro, certificar se o conforto/facilidade de leitura se traduz em leitura regular. Uma coisa é o inquirido dizer que se sente confortável a ler, outra é o inquirido ler de facto.

Do total das respostas, a maioria dos inquiridos (56 por cento do total da amostra) responde que lê longos textos online regularmente. Ou seja, embora metade da amostra se sinta confortável a ler textos mais longos online, há 6 por cento de inquiridos que, apesar de considerarem a leitura desconfortável, assumem ler com regularidade. O facto de esta percentagem ser pequena sugere que o desconforto e a frequência de leitura podem estar relacionados, e que o interesse no assunto do texto é um valor relativo inferior para a grande maioria dos inquiridos que não se sente confortável com a leitura contínua online.

Com a inclusão da variável “suporte”, ressaltam quatro desvios padrão:

  1. A resposta “Raramente”, dos inquiridos que utilizam tablets para ler online, sofre uma diminuição de 22 por cento em relação à percentagem média do total de inquiridos;
  2. A resposta “Todas as semanas”, dos inquiridos que utilizam tablets para ler online, aumenta 9 pontos percentuais face à percentagem média do total de inquiridos;
  3. A resposta “Todas os dias”, dos inquiridos que utilizam tablets para ler online, aumenta 11 por cento em relação à percentagem média do total de inquiridos;
  4. A resposta “Todas as semanas”, dos inquiridos que utilizam computadores de secretária para ler online, sofre uma diminuição de 11 pontos percentuais em relação à percentagem média do total de inquiridos.

Estes dados mostram que 79 por cento dos inquiridos que usam tablets leem textos longos online regularmente – um valor que é 23 por cento superior à percentagem média do total de inquiridos. Esta percentagem sugere uma correlação entre a utilização de tablets e a frequência de leitura contínua online, e demonstra consistência nas respostas às duas perguntas: no Gráfico 1, também 79 por cento dos inquiridos que usam tablets afirmam que se sentem confortáveis a ler textos longos online, desde que o assunto seja do seu agrado. Isto é, as respostas às duas perguntas sugerem uma relação entre os estados de três variáveis: a utilização de tablets, o conforto e a regularidade da leitura. São os inquiridos que leem textos extensos online através de tablets que sentem mais conforto e leem com maior frequência. Por outro lado, há uma tendência – 10 por cento superior à percentagem total de inquiridos – para a diminuição da regularidade da leitura de textos longos online por utilizadores que acedem a conteúdo noticioso através de computadores de secretária.

Apresentamos a súmula dos principais resultados:

  1. Os utilizadores de tablets sentem-se mais confortáveis com a leitura contínua online – mais 31 por cento em relação à percentagem média do total de inquiridos;
  2. Há uma tendência para os utilizadores de smartphones preferirem textos mais curtos – as respostas aumentam 9 por cento face à percentagem média do total de inquiridos;
  3. Os utilizadores de tablets leem com maior regularidade longos textos online – um valor que é 23 por cento superior à percentagem média do total de inquiridos;
  4. Há uma tendência – 10 por cento superior à percentagem total de inquiridos – para a diminuição da regularidade da leitura contínua online por utilizadores que acedem ao conteúdo noticioso através de computadores de secretária.

Conclusões

Como principais resultados das respostas aos questionários e da relação entre as variáveis, destacam-se: 1) o maior conforto que os utilizadores de tablets sentem com a leitura de textos longos online; 2) uma ligeira propensão para a preferência de textos mais curtos por quem acede a conteúdo noticioso online através de smartphones; 3) a maior regularidade da leitura contínua por utilizadores de tablets; e 4) a tendência para uma menor regularidade de leitura por quem acede a notícias online através de computadores de secretária.

Estes dados mostram que não só o suporte a partir do qual se acede a sites noticiosos torna mais confortável a leitura contínua online, como esse conforto se traduz em leituras mais regulares. As respostas aos questionários indiciam uma relação entre os estados de três variáveis: a utilização de tablets, o conforto e a regularidade da leitura. São os inquiridos que leem textos longos online através de tablets que sentem mais conforto e leem com maior frequência.

Assim, podemos confirmar a hipótese de partida de que, por um lado, o suporte a partir do qual se acede a sites noticiosos pode facilitar a leitura contínua online, contribuindo para a usabilidade dos sites de notícias; e, por outro, de que essa usabilidade se traduz em leituras mais regulares. Este aspeto é importante, pois sugere uma relação entre conforto de leitura e frequência de uso.

Nielsen criticaria a nossa metodologia e diria que este estudo foi incapaz de mostrar o que os utilizadores realmente fazem, mas apenas o que eles dizem que fazem (cf. Nielsen e Loranger, 2006: 371). Como resposta, citaríamos a autora de Clout – The Art and Science of Influential Web Content, Collen Jones, que acusa Nielsen de “tentar testar a leitura sem considerar a relevância do conteúdo e o contexto” (Jones, 2012). Sendo o conteúdo escrito o principal produto de um site noticioso – o fator determinante na escolha dos utilizadores e na satisfação que lhes proporciona –, também será inadequado avaliar a usabilidade de sites sem ter em conta a sua relevância para os leitores.

No entanto, embora se confirme a influência do suporte utilizado no conforto de leitura contínua online, não foi possível determinar as razões que a justificam. A hipótese sugerida por Nielsen, de que as pessoas podem estar dispostas a ler mais em monitores de alta qualidade, não foi possível confirmar. É certo que os tablets têm melhores monitores do que a generalidade dos computadores portáteis e de secretária, mas seria excessivo atribuir a essa característica a razão do conforto da leitura. Por exemplo, os inquiridos que acedem a conteúdo noticioso online através de smartphones preferem tendencialmente textos mais curtos, apesar de a qualidade dos monitores também ser alta.

Foi a grande limitação deste estudo: não incluir perguntas no questionário que pudessem apurar as razões do conforto da leitura online. Seria, pois, interessante que um futuro estudo pudesse definir com precisão quais são os aspetos que podem estar a influenciar essa noção de conforto. Será que o fator toque confere uma maior sensação de controlo, sabendo nós que o desejo de controlar é uma característica inerente aos utilizadores de sites noticiosos (cf: Sturgill et al., 2010: 7)? Será o facto dos tablets, por serem mais pequenos e flexíveis, serem também mais fáceis de manejar e permitirem que os utilizadores posicionem melhor o corpo para a leitura, como sugere Hillesund (cf. 2010)? Será que a qualidade dos monitores é mesmo um fator decisivo? Seria importante que um futuro trabalho pudesse responder a estas perguntas de forma mais categórica.

Referências

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[1] O conceito de leitura contínua, ou ininterrupta, que aqui referimos é proposto por Hillesund: “a leitura ininterrupta, de uma revista ou de um artigo de jornal, é considerada uma leitura longa e um exemplo de leitura contínua – no sentido temporal. A leitura que é repetidamente interrompida por outros compromis-sos é, portanto, descontínua” (Hillesund, 2010).
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